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Como transformar uso de IA em resultado nas empresas, por Bernardo Precht

Na coluna de hoje, Bernardo Precht, coautor do report Uso diário, fluência rasa, explica por que uso intenso de IA não é o mesmo que capacidade operacional.

Imagem: Acervo pessoal

Bernardo Precht é médico cirurgião, empreendedor e cofundador do Além da Medicina, uma das edtechs mais inovadoras do ecossistema de saúde no Brasil. Formado em medicina e Forbes 30 Under 30, ele migrou da rotina hospitalar para apostar no empreendedorismo em tecnologia — transformando a startup em um negócio de alto impacto que culminou em sua venda para o grupo Afya, listado na Nasdaq.

Além do impacto na educação e na carreira médica no país, Bernardo é uma voz ativa sobre aplicação de inteligência artificial nos negócios, inovação e alta performance. Recentemente, concluiu seu mestrado MSx na Stanford Graduate School of Business.

95% dos pilotos de IA generativa não geram impacto financeiro mensurável, segundo pesquisa do MIT. É um número estranho para uma tecnologia que todo mundo diz usar. Nos últimos oito meses, Felipe Lourenço e eu mergulhamos nessa contradição, e foi daí que nasceu o estudo.

Depois de dezenas de horas entre entrevistas e pesquisa ,a gente se deparou com um descompasso. O brasileiro já usa IA com frequência no dia a dia, mas, dentro das organizações, esse uso ainda acontece de forma desestruturada. Tem muita ferramenta disponível e pouca clareza sobre qual processo deveria melhorar.

A nossa hipótese é que parte da resposta está na curva de maturidade de adoção da IA. No começo, as empresas precisavam reduzir o medo e aumentar a experimentação. Os incentivos foram desenhados para colocar a tecnologia na mão de todos: usem IA, testem ferramentas, escrevam prompts, gastem tokens.

E isso teve uma função. Volume de uso era uma proxy de aprendizado. Tokenmaxxing é o nome que dão para essa corrida por mais licenças, prompts, treinamentos e tokens consumidos. Naquele momento, fazia sentido estimular curiosidade e reduzir a barreira de entrada.

O problema começa quando a empresa amadurece, mas continua medindo sucesso da mesma forma. Mais licenças, mais prompts e mais tokens ainda fazem a adoção parecer alta, mas já não respondem à pergunta mais importante: o que realmente mudou no trabalho?

É aqui que começa a conversa sobre fluência. Fluência em IA não é usar uma ferramenta todos os dias ou saber escrever um bom prompt. Ela aparece quando a organização aplica a tecnologia com profundidade, extrai o contexto que está na cabeça das pessoas e conecta a tecnologia aos processos para torná-la acionável.

Curiosamente, o ROI da IA costuma travar em um problema muito mais básico: o comportamento humano que é o que já tinha sido notado em outros estudo de Stanford. A pessoa percebe que a IA poderia ajudar, mas precisa explicar como trabalha, organizar o contexto, definir uma boa resposta e revisar o resultado. Diante desse custo inicial, a reação que mais ouvimos foi: “acaba que eu faço manualmente”.

Esse talvez seja um dos grandes paradoxos dessa fase. A IA diminui o custo de execução, mas aumenta a importância de conseguir explicar o trabalho. Antes, um bom profissional carregava o contexto na cabeça e simplesmente executava. Agora, para delegar parte do processo, precisa tornar visíveis seus critérios, exceções, decisões anteriores e padrões de qualidade.

Só que a maior parte desse conhecimento nunca foi documentada. Está espalhada em conversas, planilhas, mensagens e, principalmente, na cabeça das pessoas. Colocar uma ferramenta de IA na mão do colaborador resolve a camada de acesso. O trabalho começa de fato quando a empresa transforma conhecimento prático em uma camada que a IA consegue acessar e executar.

A fronteira irregular da IA. Versão em português recriada a partir de uma imagem do Ethan Mollick

É por isso que fluência deixa de ser uma habilidade apenas individual e passa a ser uma capacidade da organização. A empresa precisa saber quais workflows merecem ser redesenhados, que contexto deve entrar, quem valida as respostas e qual resultado precisa mudar.

Eu acho mais útil escolher poucos workflows importantes e medir o antes e o depois. Quanto tempo levava? Onde estavam os erros? O que ainda exige revisão humana?

Contar tokens é fácil. Entender se o trabalho melhorou é o que interessa.

O relatório mostra essa diferença na prática. uma das empresas que entrevistamos treinou um mentor de IA com conteúdo interno para ajudar gerentes em conversas difíceis com seus liderados e planos de melhoria. Uma farmacêutica reduziu de três meses para cinco dias a análise de uma pesquisa de engajamento. O número não é promessa. Mostra o potencial de aplicar IA a um workflow delimitado.

No fim, a responsabilidade por IA parece espalhada pela organização. Inteligência artificial virou pauta de todo mundo e agenda de ninguém. Todo mundo provoca, recomenda uma ferramenta ou anuncia um piloto. Mas pouca gente bate no peito para decidir onde a IA deve entrar, quais riscos são aceitáveis e qual resultado será cobrado.

Talvez essa seja a parte incômoda. Problema e solução estão em pontos menos sofisticados do que agentes, loops ou o modelo da semana. A solução passa por governança, estratégia, do’s and don’ts claros e alguém com autoridade sobre cada workflow. Sem dono, regra e métrica, agente nenhum resolve.

Você só automatiza a ausência de decisão.

Para conferir o LinkedIn do Bernardo, clique aqui.

A coluna foi baseada no report Uso Diário, Fluência Rasa, escrita pelo próprio Bernardo e por Felipe Lourenço.