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Revolucionando a criação de conteúdo gastronômica no Brasil: Uma entrevista com Otto Vitelleschi

Otto Vitelleschi começou sua carreira vendendo molhos caseiros de porta em porta para juntar dinheiro e visitar a namorada que tinha se mudado para a Alemanha. Faturava o suficiente para a viagem, mas percebeu que aquilo poderia ir muito além.

Foi quando decidiu aprender marketing digital e começou a postar vídeos de receitas. Rapidamente, seus vídeos viralizaram — o que deu origem ao Cheff Otto. Hoje, aos 23 anos, ele comanda o maior canal de gastronomia do Brasil, com 10 milhões de inscritos no YouTube e mais de 100 milhões de views mensais.

Mas Otto não quer ser só influenciador. Fundou sua própria marca de molhos, e já tem planos para lançar uma linha de utensílios domésticos e criar um braço de franquias em 2026. A meta é clara: em cinco anos, a operação de mídia deve responder por apenas 5% do faturamento da holding — o resto vem de produtos e novos negócios.

E é sobre essa transformação de criador em empresário que o the news conversou com ele.

the news: Começando pela sua história, como começou sua carreira na criação de conteúdo e quais os principais desafios e aprendizados?

Otto Vitelleschi: Eu comecei minha jornada vendendo comida de porta em porta na minha vizinhança. Comecei vendendo molho de tomate e molho pesto para ganhar um dinheiro extra, com o objetivo de conseguir visitar minha namorada na Alemanha — o pai dela havia sido transferido para lá e eu precisei juntar dinheiro para fazer essa viagem. Depois que voltei ao Brasil, já tendo experiência com vendas de comida, comecei a tentar vender pela internet, porque era mais prático do que vender de porta em porta. Então comecei a estudar marketing e comunicação — não na faculdade, pois fiz Administração de Empresas —, mas mergulhei em todo tipo de conteúdo sobre comunicação, marketing e publicidade.

Foi aí que criei um canal chamado Chef Otto, que era o nome da minha marca de molhos na época. Meu quinto vídeo viralizou e atingiu 5 milhões de visualizações. A partir daí, percebi que fazer conteúdo para a internet era mais vantajoso do que vender comida — o modelo de negócio era superior —, e passei a focar 100% em conteúdo. Cinco anos depois, somos o maior canal de gastronomia do Brasil.

TN: Agora na parte empreendedora, como foi esse processo para se tornar uma verdadeira marca e uma holding em volta da produção de conteúdo?

OV: Meu time é muito bom em fazer conteúdo — sabemos fazer e sabemos viralizar. Sinceramente, queremos nos tornar o maior canal da história do Brasil, e para isso precisamos nos consolidar como uma empresa robusta de mídia. No futuro, pretendemos ter outras marcas atreladas a nós — marcas das quais somos sócios, donos ou parceiros. Mas por enquanto, o Cheff Otto é um canhão de mídia, e utilizamos essa mídia para fazer essas marcas crescerem.

TN: Como você descreve hoje a holding que está construindo em torno da marca Cheff Otto e quais são os pilares de receita que mais importam agora?

OV: Temos vários projetos em andamento. A ideia é que, além de nos tornarmos o maior canal da história do Brasil, avancemos pelo caminho da internacionalização — com capacidade produtiva internacional. Meu inglês é muito bom, assim como o da minha equipe, então vamos começar a produzir conteúdo em inglês para o público mundial e levar a cultura brasileira para fora.

Mas focando no modelo de negócio dentro do Brasil: temos caixa, temos vontade de investir, temos bons negócios e bons parceiros — e nossa vantagem competitiva é que nosso CAC é praticamente zero, porque temos muita mídia e uma audiência fiel. Esse é um diferencial competitivo muito forte.

Estamos construindo uma holding com vários pilares de negócio e criando marcas que não carregam o nome Cheff Otto, pois pretendemos atrair investidores e, no longo prazo, ter empresas com valor de mercado próprio, que não dependam do meu rosto. Em alguns anos, elas vão rodar de forma independente.

Sobre os pilares de receita: hoje temos principalmente publicidade e AdSense — ainda somos uma empresa de mídia no modelo tradicional. Mas estamos mudando isso. Vamos abrir uma marca de utensílios de gastronomia em parceria com o maior canal de churrasco do Brasil, o Chef Julima. Será uma joint venture entre Cheff Otto e Chef Julima, com os melhores utensílios disponíveis — muitos deles ainda sem representação no Brasil, escolhidos a dedo por nós. Também estamos criando uma empresa de condimentos chamada Astro, que comercializa molhos e temperos. E estamos desenvolvendo um modelo de negócio de alimentação franqueado.

TN: Como você vê o papel dos vídeos curtos e dos conteúdos mais longos do ponto de vista estratégico?

OV: Os vídeos curtos funcionam como repetição de mensagem e são voltados para alcance — conseguimos atingir um volume enorme de pessoas com eles. Já os vídeos longos têm profundidade e são os que realmente marcam as pessoas.

Deixa eu fazer uma pergunta: na última semana, quantos vídeos curtos você assistiu? No Instagram, TikTok, YouTube — quantos? Vários, dezenas, talvez centenas. Quantos você efetivamente lembra? Um, dois? Provavelmente nenhum.

Agora: quantos vídeos longos você assistiu no YouTube no último ano? Quantos você lembra? Eu lembro de vários — temas que me marcaram e que carrego comigo. Essa é a profundidade.

Então estamos num caminho em que alcançamos muitas pessoas com os vídeos curtos e as conduzimos para os vídeos longos, que são ouro — porque é neles que conseguimos profundidade real com a audiência.

TN: Como você decide quais projetos merecem investimento de tempo e recursos da sua equipe?

OV: A lógica é simples: precisamos escolher o que vai gerar mais resultado com menos tempo e menos esforço. Muitas pessoas se perdem no caminho por falta de foco — nós temos clareza sobre o que queremos. O core do Cheff Otto é conteúdo, e não abrimos mão disso para tocar outros negócios. Entramos em novos projetos apenas quando o core permanece intacto. O fato de nos tornarmos o maior canal do Brasil vai naturalmente atrair muitas oportunidades — e vamos escolher as melhores, as que fazem mais sentido e que vão gerar mais ROI.

TN: Qual foi o maior desafio de estruturar a operação em São Paulo visando parcerias com grandes marcas?

OV: Cultura. Manter a cultura forte e firme foi o grande desafio — mas foi a melhor decisão que tomei. A mudança para a maior capital econômica da América Latina foi transformadora, porque estamos a um passo de todos os maiores CEOs e CMOs do Brasil. Hoje conhecemos todo mundo.

Conseguimos marcar um almoço com o CEO de uma multinacional e um jantar com outro, sem depender de deslocamento ou de agendas complicadas. Estamos muito mais próximos de quem importa e podemos receber todos dentro do nosso escritório — e é uma experiência enriquecedora receber pessoas inteligentes aqui.

Temos recebido profissionais excelentes do Brasil inteiro, e isso tem sido o maior ciclo de aprendizado que vivemos nos últimos anos. Em Sorocaba, nossa cidade natal, há muita gente competente — mas aqui em São Paulo há profissionais que são excepcionais, com uma mentalidade disruptiva. Estar próximo dessas pessoas tem aberto muitas portas.

TN: Como você equilibra a criação de conteúdo e o Otto influencer com a gestão de um negócio que inclui produtos e franquias?

OV: É difícil equilibrar. Com o tempo, pretendo ter cada vez mais controle sobre a gestão do meu tempo. Sou uma pessoa extremamente produtiva — do momento em que acordo até a hora em que durmo. Estou estruturando uma equipe com boa gestão de tempo, com processos e regras claras, sem enrijecer a empresa.

Canais de YouTube, em geral, são conduzidos de forma improvisada — às vezes entre amigos, sem processo nenhum. Estamos construindo uma empresa de mídia de verdade. Para que eu tenha tempo hábil, preciso de uma agenda bem organizada. Tenho dias específicos para gravar: chego ao estúdio, gravo os vídeos e me libero, porque hoje o tempo é meu maior recurso escasso.

Nos novos projetos, tenho sócios que são operadores e que me ajudam a construir e tocar cada frente. Eu atuo na frente de mídia e, em alguns casos, como investidor. A questão central é: não preciso estar presente em 100% das decisões. Preciso fazer o que faço bem — meu core business, ser o Cheff Otto. É isso que demanda mais de mim.

TN: Você reinveste 100% dos lucros no negócio? Como a disciplina financeira molda sua estratégia de crescimento?

OV: Reinvisto 100% dos lucros da empresa. Tenho meu pró-labore, mas todo o restante permanece dentro da empresa — investido de alguma forma, seja em capex, seja em reinvestimento em mídia. Temos muitos tipos de investimento porque estamos com vários projetos novos em andamento. É questão de tempo até um deles se tornar um 10x ou 100x — aquele que vai pagar todos os outros. São muitos bons projetos.

Em relação à disciplina financeira: desde que vim para São Paulo, tenho visto pessoas que gastaram tudo em carros, mansões e itens de luxo. Não fiz isso. Tenho uma vida confortável, mas não uma vida de ostentação — e hoje posso investir em negócios de verdade. É muito gratificante ter uma oportunidade e poder fazer parte dela com capital disponível.

TN: Que métricas além de views e seguidores são usadas para avaliar o desempenho dos seus negócios?

OV: Faturamento, obviamente, e presença de marca. Mas, sinceramente, qual é o core business do Cheff Otto? Conteúdo. Quanto mais assistido, mais resultado gera em todas as outras empresas. Nosso CAC é baixo, nosso diferencial competitivo vem da criação de conteúdo, das visualizações e da confiança que construímos — portanto, para o Cheff Otto, essa continuará sendo a principal métrica.

Mas há uma métrica que considero muito relevante — ainda não está sendo aplicada formalmente, mas em cinco anos estará: o quanto cada empresa tem de autonomia sem depender do marketing do Cheff Otto. Queremos criar empresas que não dependam do meu rosto. No início, usamos nosso alcance para tracionar — mas depois que a empresa se consolida, isso deixa de ser necessário. Um grande indicador de sucesso será ver uma empresa faturando de forma independente, sem precisar do nosso canal para existir.

TN: Quando pensa em internacionalização, o que precisa acontecer antes para viabilizar esse passo?

OV: Esse processo começa em abril deste ano. Como sou fluente em inglês, vou atuar como apresentador em inglês, pois quero levar a cultura brasileira para o mundo. Quero mostrar que o Brasil vai muito além de samba, funk e futebol — o Brasil de hoje é cool, é descolado, e o mundo está se voltando para a cultura brasileira.

Acabei de voltar de Dubai, onde participei do One Billion Followers Summit, dei uma palestra e me reuni com alguns dos maiores criadores do mundo para entender como funciona esse processo de internacionalização. Não vamos apenas dublar conteúdo — vamos produzir em inglês nativamente, porque quero competir com os maiores do mundo. Para nos tornarmos o maior canal da história do Brasil, precisaremos falar em mais idiomas.

TN: Qual é a cultura que você busca no time central do Cheff Otto e como você a preserva com o crescimento rápido?

OV: Temos uma cultura de fazer o impossível acontecer. Temos sonhos altos, e sonhos altos não se realizam da forma convencional. Sempre precisamos fazer algo diferente. Se queremos melhorar 30 ou 40%, podemos aprimorar processos existentes — mas quando queremos escalar de verdade, precisamos encontrar modelos inovadores e reinventar a forma como fazemos as coisas.

TN: Você já pensou em abrir capital ou captar investimentos externos? Por quê?

OV: Pretendo abrir capital um dia — quero construir uma empresa de 1 bilhão de reais. Mas não temos essa necessidade no momento. Estamos buscando smart money — investidores estratégicos que agreguem além do capital.

Como alguns dos nossos negócios já operam de forma autossustentável e não precisam de tração imediata, injetar capital nem sempre se traduz em crescimento acelerado. Mas se houver uma oportunidade estratégica, estou aberto a abrir uma rodada de investimento para algumas dessas empresas em breve.

TN: Como você diferencia a marca pessoal do Otto da estrutura corporativa da holding?

OV: O Cheff Otto é uma marca, e o Otto é uma pessoa — mas construímos um selo de qualidade, assim como os maiores criadores do mundo e como grandes canais de televisão. O nome Cheff Otto hoje vai além de mim: já temos produtos, já temos a confiança do nosso cliente de que será algo de qualidade. Meu time vai muito além de quem sou eu individualmente. Quando alguém fala em Cheff Otto, sabe que há um time robusto por trás. A marca é tratada como uma marca família — cuidada com zelo. Assim como a Cazé TV: o Casimiro é o rosto, mas a Cazé TV se tornou uma marca muito maior do que ele.

TN: Que hábitos diários você considera responsáveis pela sua produtividade e foco em execução?

OV: Não bebo, não fumo, não frequento baladas. Sou extremamente focado, durmo cedo, acordo cedo, treino e sou cristão. Sinceramente, não acredito que nenhum desses atributos isoladamente leve ao sucesso — mas acredito que todos eles juntos reduzem drasticamente as distrações. Sou uma pessoa muito focada, e se precisasse apontar o hábito mais determinante, seria esse: foco total e uma rotina 100% orientada para resultados.

TN: Qual foi a decisão mais difícil que você tomou até hoje como empreendedor?

OV: Ir contra a maré. Lembro que, há alguns anos, estávamos no auge dos vídeos curtos, e eu comecei a investir — a gastar sem retorno imediato — para produzir vídeos longos, porque acreditava que era o caminho certo. Prometi a mim mesmo que funcionaria, tinha plena convicção. Observei esse movimento acontecer no restante do mundo e apostei nisso. Deu certo — hoje somos o maior canal de gastronomia do Brasil por causa dessa decisão.
Outra dificuldade foi a tomada de risco em um mercado tão novo. Muitas vezes não existem mentores para orientar, porque o que estamos fazendo nunca foi feito antes. É preciso construir o caminho enquanto se caminha.

TN: Qual produto ou linha de negócio fora da mídia você acha que pode virar carro-chefe no próximo ciclo? Como você pensa em construir uma franquia sem perder a essência da marca?

OV: Acredito que a marca Cheff Otto vai ser muito maior do que o modelo de negócio de mídia — por mais que a mídia ainda tenha muito a crescer. Todos os outros negócios que surgirão a partir dela vão criar valor de mercado real e independente, com potencial para serem vendidos com valuations expressivos.

Não darei mais spoilers — mas o negócio que mais me entusiasma agora é a marca de utensílios. Acredito que será a maior marca de utensílios culinários nascida da internet no Brasil. Vamos ajudar muita gente, porque hoje o mercado é confuso: há muitos produtos, de qualidade variável, sem curadoria.

Vamos selecionar apenas os melhores, incluindo itens ainda sem representação no Brasil, e guiar as pessoas a comprarem com inteligência. Esse projeto tem um potencial enorme.

TN: Onde você vê o Cheff Otto daqui a cinco anos em termos de alcance e modelo de negócio?

OV: Vejo o canal com mais de 70 milhões de seguidores. Nos tornaremos o maior canal da história do Brasil — tenho total convicção disso. O nível de conhecimento que temos sobre YouTube, somado à consistência e à repetição, torna improvável qualquer outro desfecho.

Em termos de modelo de negócio, em cinco anos espero que a holding Cheff Otto dependa de apenas 5 a 10% do faturamento atrelado ao meu rosto. Será um negócio verdadeiramente sustentável e independente.

TN: Qual conselho você daria para outro creator que quer transformar audiência em negócio sustentável?

OV: Delegue, construa uma equipe sólida, não gaste seu dinheiro — invista. E trabalhe muito antes de querer colher os frutos.

TN: Se pudesse escolher entre dobrar sua equipe ou dobrar sua receita no próximo ano, qual priorizaria e por quê?

OV: Vou dobrar minha equipe este ano — então isso já fala por si. O crescimento de receita vai acontecer naturalmente, mas a equipe é o que viabiliza processos mais sólidos e um crescimento sustentável de longo prazo.

TN: Você prefere trabalhar com desafios criativos ou metas financeiras agressivas?

OV: Por que não os dois? Aprecio desafios criativos e metas financeiras agressivas igualmente. São complementares.

TN: Para fechar, qual o grande aprendizado para quem está tentando crescer ou começar agora, tanto como influencer quanto como empreendedor?

OV: Estamos na era da atenção. Nunca foi tão fácil ser visto e ouvido — e por isso, aprendam a se comunicar. Não basta ser bom no que se faz. A competição está tão acirrada que você precisa ser, ao mesmo tempo, um excelente profissional e um excelente comunicador.

Não acredito em pessoas de má índole que são bons comunicadores — elas podem enganar por um tempo, mas não se sustentam no longo prazo. Bons profissionais que são bons comunicadores: esses são os que perduram.

Para quem está tentando crescer: entenda o que interessa às pessoas e como elas consomem informação. O maior erro dos maus comunicadores é falar como se estivessem falando para si mesmos. Lembre-se sempre de que você está falando para o seu ouvinte — quem está te ouvindo precisa te entender.

Para conferir o LinkedIn do Otto, clique aqui.